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Rotas do Mundo

Pedro around the World... My life, my dreams, my favourite things

Uma Rua de Roma

Julho 16, 2018

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Quero uma rua de Roma 
com seus rubros com seus ocres 
com essa igreja barroca 
essa fonte esse quiosque 
aquele pátio na sombra 
ao longe a luz de um zimbório 
mais o cimo dessa torre 
que não tem raiz no solo 

Em troca darei Moscovo 
Oslo Tóquio Banguecoque 
Fugaz e secreta à força 
de se mostrar rumorosa 
só essa rua de Roma 
em cada nervo me toca 


Por isso a quero assim toda 
opulenta de tão pobre 
com o voo desta pomba 
o ribombar desta moto 
com este bar de mau gosto 
em cuja esplanada tomo 
este espresso após o almoço 
à tarde um campari soda 

Em troca darei Lisboa 
Londres Rio Nova Iorque 
toda a prata todo o ouro 
que não tenho em nenhum cofre 
só no cotão do meu bolso 
e no que a pátria me explora 


Quero essa rua de Roma 
Aqui onde estou sufoco 
Aqui as manhãs irrompem 
de noites que nunca morrem 

 

Quero esse musgo essa fonte 
essas folhas que se movem 
sob o sopro do siroco 
ora tépido ora tórrido 
frente à igreja barroca 
tão apagada por fora 
mas que do altar ao coro 
por dentro aparece enorme 


Quero essa rua de Roma 
casta rugosa remota 
Em troca darei as lobas 
que não aleitaram Rómulo 
mas me deixaram na boca 
o travo do transitório 


Quero essa rua de Roma 
sem conhecer quem lá mora 
além da madonna loura 
misto de corça e de cobra 
que ao longo de tantas noites 
tanta insónia me provoca 
Quanto às restantes pessoas 
inventarei como sofrem 

Quero essa rua de Roma 
Terá de ser sem demora 
Sabemos lá quando rondam 
abutres à nossa roda 
Mas não me lembro do nome 
da rua que assim evoco 
soberba se bem que tosca 
direita se bem que torta 
com um Sol que tanto a doura 
como a seguir a devora 

 

Em troca darei o troco 
do que por nada se troca 
o florescer de uma bomba 
o deflagrar de uma rosa 

 

Quero essa rua de Roma 
Amanhã   Ontem   Agora 
Que importa saber-lhe o nome 
se a trago dentro dos olhos 
Há uma igual em Verona 
Outra ainda mais a norte 
Outra talvez nem tão longe 
num burgo que o mundo ignora 
Outra que apenas se encontra 
onde a paixão a descobre 

 

Mas rua sempre de Roma 
Romana em todo o seu porte 
mistura de alma e de corpo 
aquém   além   do ilusório 
Romana mesmo que em Roma 
não haja quem a recorde 
Onde quer que o sexo a sonhe 
e o coração a coloque 
é lá que todo sou todo 
Aqui não    Aqui não posso 

David Mourão-Ferreira, in 'Os Ramos Os Remos' 

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